SOCIEDADE, UMA FÁBRICA DE CORINGAS; Leia opinião do contabilista José Ricardo – Portal O Farol

SOCIEDADE, UMA FÁBRICA DE CORINGAS; Leia opinião do contabilista José Ricardo

Que filme! Coringa, filme que teve estreia no mês passado, vem gerando uma série de debates e reflexões, pois longe de ser uma obra cinematográfica baseada nas revistas em quadrinho, a obra nos remete às mazelas da sociedade como: bullyng, desigualdade, abandono do Estado, omissão parental, indiferença, desprezo, enfim acontecimentos fatoriais que indubitavelmente refletem sobre o componente social.

“O homem é produto do meio”. Quem já não ouviu esse enunciado? Lembro-me que esse tema foi assunto de uma discussão entre amigo, no antigo Bar Nordeste, do amigo Pedro, na cidade de Sapé, nos anos 80/90. O debate, na ocasião, girava em análise dos transtornos psicológicos em contrapartida com o instinto do mal que acomete certos indivíduos da nossa sociedade. Eu era um defensor ferrenho de que o meio não transformava o ser. Minha posição era radicalmente imutável, pois eu sempre considerava apenas o meu exemplo de vida como regra de convivência social. Tadinho de mim. Quanta inocência! Hoje me encontro num outro patamar de cognição e não tenho mais nenhuma pontinha de dúvida: a sociedade é a responsável pelo desvio de conduta do ser humano. Respeitamos ideias contrárias, mas fico com as minhas convicções, sem traumas nem aperreios. Dias depois, chegou aos meus ouvidos, através do amigo Vigoberto, que a nossa calorosa discussão no Bar Nordeste, na ocasião, gerou certo descontentamento doentio de um estranho presente, que teria indagado a alguém se queria que ele me desse um corretivo. Trocando em miúdos, o “cidadão de bem” estaria disposto a agir contra minha vida, se necessário fosse, pois, na opinião daquela figura, eu estava sendo impertinente. Vejam a que ponto o ser social chega com a sua doença. Graças a Deus, isso não passou de um momento de febril loucura e hoje estou aqui para contar estórias.

Voltemos ao filme Coringa. Trata-se de uma película violenta, imprópria para menores de dezoito anos, quiçá para maiores de mente fraca.

Tudo acontece na sombria cidade de Gotham City, onde vive uma sociedade dividida entre miseráveis e milionários, num verdadeiro acinte contra a pacífica convivência social. Dirão os Neoliberais Capitalistas: “Ah! Quem está no topo fez por merecer, pois ralou muito enquanto que os vagabundos ficavam a espera de esmolas e ajudas, sem nada querer com a vida”. Isso é plausível? Faz sentido, ou quem assim pensa é uma vítima eloquente da sua própria estupidez? É incrível como usamos tão inadequadamente o conceito de meritocracia por aqui, sem se considerar as desigualdades e os componentes da nossa história. Quando endeusam a meritocracia sempre remeto o eloquente interlocutor a analisar uma pista de atletismo, num momento estático e fotográfico, com os corredores fixados em suas raias e aí contemplar e meditar sobre as reais condições de vitória de quem está na raia interna e externa da pista. Os posicionamentos são de tal forma que não possibilitem vantagem para um determinado corredor. Na vida isso também acontece. Todos não partem do mesmo ponto rumo ao sucesso profissional. Vai ter gente que precisa encurtar distâncias para competir em condições isonômicas. Quando alguns insensatos não conseguem ver esse cenário e querem igualdades de condições sem considerar variantes é o que chamamos de “injustiça satânica”. Esse é um ponto a refletir.

O personagem do excelente filme, Arthur Fleck, interpretado por Joaquim Poenix, em excepcional desempenho artístico, é um fracassado anônimo, desconsiderado pela sociedade pela sua posição hierárquica na pirâmide social, que não teve pai, teve que cuidar da sua mãe doente e idosa, e que certo dia o estado lhe virou as costas e interrompeu o fornecimento de medicação para tratar dos seus transtornos psicológicos. Desamparado e sem opções, tenta sobreviver atuando como palhaço contratado e propagandista de rua. È a arte imitando a vida. Isso vemos diariamente nas ruas não é mesmo? Ao vermos um miserável na rua, pedinte e envergonhado, não imaginamos o quão é difícil e sofrida é a vida daquele ser. Geralmente nos tornamos indiferentes, pois geralmente raciocinamos assim: “não vou resolver os problemas do mundo”. Já tenho os meus problemas. Acho que podemos ao menos podemos tirar a pedra que existe no nosso coração é olhar a situação com sublime amor e compaixão.

No filme, o cidadão Arthur passa por diversas humilhações e maldades. É agredido em seu trabalho. Maldosamente agredido em um trem, onde cidadãos de bem abusam da liberdade e do direito que julgam ter, pois são pessoas bem sucedidas e contribuintes de impostos. Por vezes trata-se de sonegadores indecorosos que subiram na vida à custa do suor dos mais fracos. Cidadãos de bem. Acima de qualquer suspeita, vivem de acordo com as suas conveniências e atitudes confidenciais mostrando a face enganosa de sua real existência, quando em sua vida privada travam uma batalha feroz com a hipocrisia da moral e da fé.

Tudo isso, quando vem à tona, constitui-se em combustível par o acirramento dos ânimos e a transformação de integrantes da sociedade em verdadeiros coringas existenciais.

Inteligentemente, o autor do filme Coringa, não fez menção ao Batmam, o justiceiro, cidadão de bem acima de qualquer suspeita, que ignora as leis e faz justiça com as próprias mãos, para delírio de uma plateia ensandecida. Fico a imaginar qual dos dois é o pior bandido, cada um com o seu matiz de maldade.

Algumas pessoas não gostam de abordar esse assunto com profundidade porque a elas não interessa o desconforto que a realidade nos impõe. É muito mais fácil invocar o nome de Deus (às vezes em vão) em tudo, apresentar-se como cidadão de bem, acima de qualquer suspeita, do que admitir que faz parte da matéria prima que contribui para a construção de coringas da sociedade doente.

Recomendamos o filme para quem ainda não o viu. Eu fui. Recomendo.

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