Sapé: ‘Vovó Vina, um século de histórias para contar’, por João Marcos – Portal O Farol

Sapé: ‘Vovó Vina, um século de histórias para contar’, por João Marcos

No último sábavódo a cidade de Sapé, uma das mais importantes da Paraíba, reuniu-se para celebrar o centenário de Severina Mariano Serafim, dona Vina, Vó Vina, para os que são próximos, ou de sua imensa família. Mulher linda, de hábitos simples, conselheira, viu a história se arrastando feito serpente, por entre dez décadas de existência.

Getúlio Vargas, a Great Western, Revolução Russa, ida do homem a Lua, o golpe militar de 64 e o massacre dos camponeses, a redemocratização do pais, os papas Pio XII, João XIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco, desfilam em sua memória privilegiada e seu riso fácil.

Mulher de luta. A tristeza nunca se lhe abateu. Dois de seus filhos os enxerga apenas com o coração e o abraço terno. Aos 45 anos perdeu sua visão. Que importa, se “o essencial é invisível aos olhos e a gente só vê bem com o coração”, como disse o poeta.

A festa foi linda, impecável. O Nordeste1 esteve presente, através de Eraldo Luis, amigo da família. Dona Vina, que não o conhecia, jamais o viu, mase o escuta todos os dias.

Adiante o belíssimo texto/crônica/documento do escritor sapeense, João Marcos, nos apresentando mais essa grande mulher. Não deixe de ler. É tudo muito lindo, poético e verdadeiro. Coisas de rir e chorar. Boa leitura.

                        VOVÓ VINA, 100 ANOS DE SUCESSO                                             

No ano de 1916 começou a Primeira Guerra Mundial.  Por causa disso, o Serviço Militar passou a ser obrigatório no Brasil.

No dia 23 de Julho de 1916, em Mogeiro de Cima, nascia Severina Mariano Serafim, carinhosamente hoje, chamada de Vó Vina. Seu pai, Domingo Marinho, trabalhava na construção da linha de ferro GREAT WESTERN, que vinha de Natal RN até o porto de Cabedelo PB, por isso, ele não serviu ao Exército.

Vó Vina teve 06 irmãos e como toda mulher, muito apressada, casou-se no ano de 1933, com 16 anos, com Severino Serafim Félix. Nesse ano, as mulheres brasileiras puderam ir às URNAS pela primeira vez.

Seu Severino, o esposo, foi agricultor, comerciante, carpinteiro, marceneiro e modelador de móveis. Seu Severino era o sabidão, o TUCHAU. Ele sabia  fabricar e vender doces, cocada, e também FAZER meninos. Teve com Dona Vina  10 filhos: José, Jacira, Jorge, Maria de Lourdes, Clarice, Neuza, Carminha, Dorinha, Severino e Joca.

São 23 netos, 39 bisnetos e 18 trinetos. Dentre eles, Bruna, filha de Eliane, neta de  Elineuza, bisneta de Jacira, mais conhecida como Nina, trineta de Vó Vina.

Se Bruna não for COMPLICADA  como Neuza, não for EXIGENTE que nem Dorinha, DEVAGAR que só Telma, e for DESARNADA igual Carminha, Vó Vina, a senhora ainda vai ter Tetraneto, mais conhecido como TATARANETO.

Dona Vina, dentre muitas atitudes nobres, ela praticamente criou Ramo Serafim, filho da outra. É que seu Severino, o esposo, cometeu um  deslize. Só um. E desse pequeno DESLIZE teve  08 filhos com uma outra pessoa.

Mas dona Vina não era brinquedo, não: Ainda solteira, morava com seu irmão Antonio. Para não morar com a cunhada, casou 10 dias depois de ele casar.

Perguntei:

– Dona Vina, a senhora seria capaz de morar com sua sogra?

Ela nem respondeu. Disse a Dorinha, sua filha:

– Dorinha, o rapaz já está indo EMBORA, acompanhe ele até a porta!

Antes de sair, perguntei:

– Por que a senhora não casou no mesmo dia de seu irmão?

Olha a sabedoria:

– Porque onde tem duas noivas, a felicidade de uma é ROUBADA pela outra.

aa51ed2e-0182-406d-9dc4-c7449be7efd7A mobília da casa da noiva Vina, era de fazer inveja: tinha um LAMPIÃO, uma cama de Campanha, um rádio Canarinho A VOZ DE OURO, uma Cristaleira, uma TIRRINA, um ferro de Carvão e um PENICO de Ágata. O Penico de Ágata era coisa fina. Era também chamado de penico de estanho. Quando CARMINHA, andando no Mundo da Lua, deixava cair, aquela parte branca  se desprendia. A partir daquele momento o penico de Ágata virava um lindo JARRO para plantar flores. Ninguém entendia porque as flores mais cheirosas estavam ali.

Ela foi morar em uma casa com mosaico e BASCULHANTE. Nessa época quem não tivesse em casa um diploma de DATILOGRAFIA pendurado na parede, uma CRISTALEIRA e não soubesse passar um TELEGRAMA,  era palha. Palha era ralé.

Dona Vina na época de esposa recém casada, adorava escutar Rádio. Novela de rádio, Notícia, mas especialmente jogo de futebol: ainda hoje ela dorme com um radinho de pilha debaixo do travesseiro ouvindo o jogo do Botafogo da Paraiba, e do VASCO DA GAMA.

O rádio estava para época,  assim como o I. PHONE está para hoje. A novela seria o WHATSAP de agora. Por causa do rádio, o almoço dela queimou várias vezes.

– Dona Vina, como a senhora define o “FEICE” e o”WHATSAP”, essa modernidade de hoje em dia:

Ela respondeu em verso:

Ouvi falar na BESTA FERA

Quando Eu era pequena meu pai já falava,

Que viria uma coisa ruim

Para mudar nosso destino

Por isso ninguém se engane

Porque o “FEICE” é o diabo grande

E o ZAP é o diabo menino.

Outra grande atração de vó Vina, é jogar no BICHO. Ela sonhava de noite e jogava durante o dia.

Um dia ele sonhou com um pé de Bananeira com dois MACACOS em cima. No outro dia ela jogou o quê? GATO, e acertou dois dias seguidos.

Na semana seguinte ela sonhou com um bolo de aniversário na festa de seu Torneiro, seu genro. Jogou TIGRE, e acertou de novo.

– Por que Tigre, dona Vina?

– Porque Torneiro disse que o bolo foi feito com “farinha de tigre”.

– Dona Vina, nesses 100 anos, quem é a pessoa que a senhora MENOS gosta?

– Maria Nova.

– Porque Maria Nova?

– Porque quando minhas meninas eram moças, só iam para Igreja depois que passassem na frente da casa de Maria Nova, para saber qual era a última tendência da moda. A saia plissada, A CALÇA Bunda rica, o TAMANCO, o penteado no cabelo. Isso só aumentava minhas despesas.

– Dona Vina, uma das coisas que a senhora fazia quando era BROTINHO, que hoje morreria de vergonha…

– A gente ia para a festa lá em Vargem Grande, e saía com o calçado nas mãos para não chegar na festa com os sapatos sujos.

3582de3b-826f-4ff0-8ca6-3b8e65beeb56Dona Vina, fique tranquila, porque Telma, sua neta, foi flagrada, saindo da DOMUS HALL, a casa de show mais chique do momento, saindo às 04 da manhã, com os sapatos de 18 centímetros de altura, carregados nas mãos, igual a senhora fazia 80 anos atrás. Ou seja mulheres são todas iguais,  o que muda é só a época e a altura dos sapatos.

– Vó Vina, qual a maior dificuldade que a senhora encontra para lidar com seus Netos e bisnetos?

– É o palavreado de hoje em dia.

Eles dizem COPIOU, pra dizer ENTENDEU;

ME ADMIRA, eu dizia SOXTÔ;

PERFORMANCE no meu tempo era MUNGANGA;

ISSO MESMO, eu dizia IAPÔI;

STRESS a gente chamava de APERREIO;

ANDAR LENTO era MORTO NOS PANO;

Um lugar bem LONGE, era LÁ NA CAIXA PREGO;

E MUNDIÇA, continua sendo MUNDIÇA todo tempo, em qualquer canto.. Só lembrando, que Mogeiro de Cima, onde dona Vina nasceu,  fica lá na Caixa Prego.

– Dona Vina, a senhora já ouviu falar em BULLYING?

– Já. Bullying nada mais é do que caçoar com alguém, mexer.  Eu dizia aos meninos, se BULIR com uma moça, tem que casar!

– E a senhora educou seus filhos de acordo com o Conselho Tutelar?

– Meu filho, lá em casa tinha dois membros do conselho tutelar.: A sola da minha sandália havaiana e o cinturão de Severino, meu marido.

–  Dona Vina,  qual o segredo para viver tanto, principalmente com a alimentação tão falsificada hoje em dia?

– Comer cuscuz, leite, peixe, PIRÃO DE GALINHA, inhame, batata, pão feito em casa, e castanha.

– Mas castanha não é UM ALIMENTO muito carregado, não?

– Você está falando a mesma bobagem que o doutor disse. Essa semana, ela disse,  fui ao MÉDICO e o do doutor disse que castanha faz mal à saúde! Eu disse, doutor, quantos anos o senhor tem? Ele disse, Cinquenta. Eu tenho 99, comendo castanha, e não morri. O senhor pode entender de dor nas costas, mas de castanha e de viver muito, quem entende sou eu.

Aí o doutor amuou-se e disse:

– Dona Vina, eu vou passar remédio para a senhora, ou a senhora vai passar remédio para mim?

– E as suas filhas?

– Sempre orientei e dei educação. Ás vezes elas exageravam. Outro dia chegou um rapaz alto, bonito, lá em casa e disse a Carminha que queria usar o MICTÓRIO dela. Pois essa menina passou o dia chorando, dizendo que no mictório dela, alguém só mexia depois que casasse. Tive que explicar:  Menina, mictório é banheiro!

– Dona Vina, depois de viúva, a senhora não pensou em casar de novo, arranjar uma pessoa para mandar na senhora?

Ela respondeu em verso de novo:

Eu agora com 100 anos,

Na nossa ÉPOCA moderna

Escorado num BASTÃO

Mesmo com uma dor na PERNA

JESUS é quem me domina

CORNO nenhum me governa!

– Vó Vina, de vez em quando, alguém testa se a senhora está LÚCIDA, conhecendo tudo, se não está misturando as coisas?

– Hum! Um desses dias, dei 100 para Neuza pagar um Botijão de Gás que custa 50. Ela  me deu uma nota de 20 de trôco. Eu disse: Neuza, a nota de 50 mudou de tamanho, foi?

Se seu Domingo marinho,  seu pai,  tivesse feito uma feirinha para dona Vina passar esses 100 anos, teria comprado:

36.500 litros d’água; 3.650 quilos de açúcar; 1.235 quilos de café; 128 quilos de sal; 317 quilos de castanhas; 725 pacotes de absolventes; 32 caixas de pó Cashmere Bouquet, 4.628 rolos de papel higiênico; 12 penicos; 188 pares de sapatos; 211 vassouras; 632 caixas de palitos de dentes e 38 marrafas e 125 corpetes.

Neste UM SÉCULO de vida, dona Vina teve o privilégio de caminhar ao lado de pessoas maravilhosas onde pôde aprender e posteriormente ensinar aos seus. Hoje ela celebra o seu centenário.

Dona  Vina, nos envaidece bastante poder ter convivido alguns desses seus momentos,  no decorrer desta LONGA caminhada.

                                                                                                                                    Parabéns!

Ponto. Ponto de Continuação. Sempre.”

 

Com Nordeste 1

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