O POVO PERDEU O AMOR PELO BRASIL; Leia opinião do contabilista José Ricardo – Portal O Farol

O POVO PERDEU O AMOR PELO BRASIL; Leia opinião do contabilista José Ricardo

 


Podemos criar um cenário de apostas para o futuro a partir das ações, atitudes e intenções do movimento bolsonarista, recheadas de ideologias voltadas para o atraso e a destruição de políticas públicas. Antes das eleições de 2018, existia uma posição unânime: é preciso mudar os rumos do País diante da nefasta experiência protagonizada pelos governos do PT, com ênfase nas questões envolvendo atos corruptos. Não há que se negar o aparato criado pela turma petista para viabilizar a perpetuação no poder assegurando seus privilégios. Diante desse cenário, o partido proletário expôs suas feridas, dando chances para que a turma da direita conservadora, que atua sistematicamente dentro do campo do corporativismo e de nepotismo, viesse a traçar um plano diabólico de ocupação do poder a qualquer custo. Nesse processo, contou com o descontentamento generalizado da população com o estágio corrupto do País, e aí entrou tudo dentro da mesma bolha: extremistas de direita, democratas de araque, os descontentes dissidentes do PT, os fissurados por ditaduras sanguinárias e opressoras, enganados pelo fácil rótulo de defensores da moral, da família e dos bons costumes. Os cidadãos de bem. Juntou-se ao rol dos descontentes uma turma fundamentalista cristã, que não mediu esforços para direcionar seus seguidores cegos e desinformados, mostrando que tudo poderia ser factível, até defender o extermínio de semelhantes que pensam diferente, a distribuição do ódio. Pronto! O cenário está perfeito. “Já temos quórum para o desmanche”.

Primeira etapa concluída, agora é preciso retirar algumas pedras do caminho e nesse sentido houve consenso de que era preciso tirar de combate um personagem que, não obstante pesadas e sombrias dúvidas sobre o seu caráter, poderia atrapalhar o projeto de desconstrução. O Ex-presidente Lula precisa ser “eliminado”. Abro parênteses para afirmar que não considero o Lula um santo. Nada disso. O seu governo aprontou nos porões sombrios da corrupção. Acontece, porém, que a grossa camada da nossa população, aquela que teve inegáveis benefícios com os governos petistas estava com o ex-presidente, contrabalanceando os benefícios recebidos com atos corruptos da turma esquerdista. Nesse aspecto, a turma carente da base piramidal da nossa sociedade acertava em cheio. Muito melhor apoiar quem fez algo por ela do que escolher uma elite que tem sede permanente de benesses com exclusividades. Temos em conta que a elite brasileira padece de um sentimento mesquinho: “pobre tem de ser pobre eternamente e ponto final”. “Não queremos que mexam no meu queijo”. O lamentável é que esse pensamento sórdido contaminou até os ditos pobres de direita atualmente: cegaram na leitura de cenários e escolhas, tudo em nome da moral, dos bons costumes e da proteção à família, que em alguns casos nem se justificam diante da hipocrisia enrustida em certas atitudes ocultas e secretas.

Conseguiram o podium presidencial! Ótimo, agora tudo é mais fácil. É hora de por em prática o projeto de destruição de políticas públicas, que possibilitará o total domínio ditatorial dos extremistas de direita sobre uma parte da população anestesiada, perdida e sem coragem para mudar seus pensamentos, pois, às duras penas conseguiram colocar no poder algo desconhecido, esperando ao menos os efeitos de um placebo para as suas agruras. O povo – ou parte dele – perdeu o amor pelo Brasil.

O governo Bolsonaro não tem nenhum acanhamento ou vergonha em promover o desmonte de um modelo existente mesmo não tendo nada para colocar no lugar. Na avaliação da mente estreita, rasa e intencionalmente maldosa desse Governo a coisa funciona mais ou menos assim: vamos colocar em cada espaço inimigo um inimigo do espaço. Temos de observar que para proteger o meio ambiente a escolha recaiu sobre o cidadão condenado por causar danos ao meio ambiente; para a agricultura colocaram uma empresária do agronegócios, que não tem vergonha na cara ao defender uma política de liberação de agrotóxicos sem nenhum estudo aprofundado das consequências. Essa mesma chegou a afirmar que no Brasil não existe fome, pois as pessoas podem comer manga, fruta em abundância em nosso País. Ah! Deixa pra lá! Esse problema dos agrotóxicos é da área do pessoal da saúde pública. No ministério da saúde temos notado algo de positivo? Como é o nome do ministro da saúde? Alguém sabe? Sucatear o SUS, aprofundando o caos da saúde nos parece um plano diabólico, mas que demonstra evidências de intenções; “Humanos não precisam de direitos”. “Aliás, a Constituição Federal deu muito direito a vagabundos”. Então, vamos colocar lá, para destruir ações em defesa da vida e da integridade física das pessoas uma cidadã acima de qualquer suspeita, afinal é uma pessoa iluminada, que fala com Deus trepada em uma goiabeira e que defende ainda que as meninas do nordeste não usam calcinhas e por isso são estupradas; “Menino veste azul e menina rosa”. Grandes ideias para resolver nossas mazelas. Para a educação, nada melhor do que alguém que odeia as universidades públicas, pois ele trouxe a receita do capitalismo rentista: sucatear as universidades para que possamos nos apossar delas e dominar o mercado da educação e segregar uma pequena parcela da sociedade que pode pagar uma faculdade privada; O medíocre ministro da educação tem um poder de destruição somente comparado a um tsunami devastador, um terraplanista medíocre e inconsequente. Para completar o combo das perversidades, eis que o governo da destruição coloca um negro racista para cuidar das causas do negro brasileiro, tão ofendido e injustiçado em seus direitos. O preconceito racial no nosso País é uma realidade. Querer negar isso é ato insano e mal intencionado. Os estudos apontam para a realidade nua e crua: somos um País vergonhosamente racista e isso precisa ser combatido sistematicamente. Ignorando esse fato, a ação governamental foi atuante, colocando para tratar do assunto um verdadeiro “capitão do mato”, totalmente destoante das reais e justas causas afro-brasileiras. Uma vergonha para o nosso País que esse assunto seja tratado com desdém por alguém que destoa do senso comum do preconceito racial.

A população negra não quer passar a ideia de vitimização. Ela quer, e tem esse direito, é ser respeitada e ter tratamento isonômico nas oportunidades da vida e na convivência. Isso nos parece razoável. Pensar diferente disso é assumir a sua condição de racista indecoroso. A cor da pele jamais poderá servir de parâmetro nas relações sociais.

Agora, o mais sutil de todos os atos do grande projeto de destruição de políticas públicas é o tratamento diferenciado dado pelo Governo aos militares das Forças Armadas e aos servidores do alto escalão da justiça. Para esses grupos tudo. Mesmo que tenhamos que apertar o cinto, essa turma tem de ser poupada para assegurar o êxito do projeto de destruição do pacto civilizatório baseado na Lei e na dignidade da pessoa humana.

O povo perdeu o amor pelo Brasil. Tudo isso sendo escancarado, evidenciado e comprovado e parte da população continua inerte, talvez envergonhada pela péssima escolha que fez.

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